Gramáticas da natureza é um projeto que une arte, ciência e educação para aproximar as pessoas da natureza. Articula dimensões pedagógicas, científicas e estéticas para desenvolver experiências de encontro sensível com a natureza que possam ser corporificadas.
"referir-se aos animais e às plantas nunca significa referir-se a uma ausência de história, a um mundo sem cultura nem tecnologia. Trata-se de entrar em relação com uma infinidade de mediações, como é o caso toda vez que entramos em relação com outro ser humano. Ao contrário do que temos acreditado, o problema não é a ausência de consciência ou de palavra das outras espécies, mas nossa incapacidade de percebê-las. Todos os animais e todos os seres vivos falam, mas ainda não encontramos a Pedra de Roseta que traduza a linguagem deles para a nossa. É por isso que, à tese da incomunicabilidade entre humanos e não humanos, este livro opõe a de um 'poliglotismo humanimal'."
(Emanuele Coccia em O espírito da Floresta de Bruce Albert e Davi Kopenawa)
Imersão
Um experiência imersiva de encontro com a natureza e seus fenômenos, mediada pela arte e pela ciência.
Caminhadas como práticas de presença, ateliês ao ar livre,
leitura de textos, leitura da natureza
Por modo de nossa vivência ponho por caso Bernardo. Bernardo nem sabia que houvera recebido o privilégio do abandono. Ele fazia parte da natureza como um rio faz, como um sapo faz, como o ocaso faz. E achava uma coisa cândida conversar com as águas, com as árvores, com as rãs. (Eis um caso que há de perguntar: é preciso estudar ignorâncias para falar com as águas?) Ele falava coisinhas seráficas com as águas; Bernardo morava em seu casebre na beira do rio moda um ermitão. De manhã, bem cedo, ele pegava de seu regador e ia regar o rio. Regava o rio, regava o rio. Depois ele falava para nós que os peixes também precisam de água para sobreviver. Perto havia um brejo canoro de rãs. O rio encostava as margens na sua voz. Seu olhar dava flor no cisco. Sua maior alegria era de ver uma garça descoberta no alto do rio. Ele queria ser sonhado pelas garças. Bernardo tinha visões como esta eu via a manhã pousada sobre uma lata que nem um passarinho no abandono de uma casa. Era uma visão que destampava a natureza de seu olhar. Bernardo não sabia nem o nome das letras de uma palavra. Mas soletrava rãs melhor que mim. Pelo som dos gorjeios de uma ave ele sabia sua cor. A manhã fazia glória sobre ele. Quando eu conheci Bernardo o ermo já fazia exuberância nele.